Entrevista do Mês é especial com o Presidente do Conselho da Fundação SOS Mata Atlântica

Entrevista do Mês é especial com o Presidente do Conselho da Fundação SOS Mata Atlântica

Pedro Passos: “Parte de nossas metas ambientais pode ser alcançada com a restauração florestal, que deveria ser o grande foco da Mata Atlântica”Presidente do Conselho da Fundação SOS Mata Atlântica há quase dez anos, Pedro Passos exibe uma fala serena, mas uma mensagem forte, enérgica, necessária: este é o momento de (re)pensar o futuro, em nome do Brasil e das novas gerações.

Presidente do Conselho da Fundação SOS Mata Atlântica há quase dez anos, Pedro Passos exibe uma fala serena, mas uma mensagem forte, enérgica, necessária: este é o momento de (re)pensar o futuro, em nome do Brasil e das novas gerações.

Um compromisso ético que requer uma nova consciência – felizmente brotando na sociedade, segundo ele – e uma nova visão, capaz de conciliar nossas necessidades de desenvolvimento com a preservação de riquezas naturais fundamentais. Como a Mata Atlântica.

Nesta entrevista especial, inspirada na Semana da Mata Atlântica, ele conta como e por que trabalhar pela Mata Atlântica e por essa nova mentalidade ambiental, descreve as ameaças e oportunidades do Brasil num contexto internacional marcado pela retomada da esperança na cooperação, e alerta para a importância de reorientarmos nossas políticas, mesmo sob um governo que promove retrocessos ambientais.

Pedro Passo no Viva a Mata em 2019
 

O dia 27 de maio marca o Dia da Mata Atlântica. Aproveitando a data, que mensagem o sr. gostaria de transmitir para governos, gestores públicos, especialistas em meio ambiente, empresas e sociedade em geral?

Este é um bom momento para refletirmos sobre nosso compromisso ético com o futuro do Brasil. A Mata Atlântica é o bioma que mais sofreu com a forma como o país foi ocupado e o que tem hoje a menor porção preservada. Ela serve, portanto, de exemplo da importância de um novo modelo de desenvolvimento, que tenha a preservação dessa riqueza natural como fundamental para o futuro. O Dia da Mata Atlântica é uma oportunidade para uma chamada a pensar o futuro, usando o que aprendemos no passado.

No contexto dessa chamada, como o sr. enxerga hoje o papel de organizações como a SOS Mata Atlântica e seu papel ao oferecer projetos, influência política, alerta e conscientização de governantes e sociedade?

Esse é o grande desafio e o modelo que buscamos desenvolver na SOS Mata Atlântica: mobilização da sociedade e capacidade de influenciar políticas públicas. A base de associados, fãs e amigos forma essa grande rede em torno da SOS Mata Atlântica para criar a energia necessária, mas além dessa energia há um componente fundamental: políticas públicas precisam estar baseadas em conhecimento, em dados, em evidências. Essa é a pauta que vemos desenvolvendo nos últimos anos. Não basta defender uma causa, é preciso explicar por que ela faz sentido para o país. Pessoalmente, sinto muito orgulho de fazer parte da SOS Mata Atlântica neste momento, um grupo que vem, há 35 anos, levantando essa bandeira com muita dedicação, coragem e competência.

O relatório anual do Atlas da Mata Atlântica apresenta a situação do desmatamento nos remanescentes da Mata Atlântica: continua em patamar alto, com grande ameaça ao bioma mais devastado do país. Embora haja um crescimento 9% menor do que o período 2018-2019, representa um crescimento de 14% em relação a 2017-2018. Onde estamos errando?

Há um erro histórico, que vale tanto para a Mata Atlântica quanto para outros biomas: o Brasil não entendeu que o desenvolvimento com a preservação desses biomas é essencial para que possamos garantir a qualidade de vida de nossas populações. Somos um país rico com uma população pobre. Os interesses corporativistas públicos e privados se apoderaram dessa riqueza desde as nossas origens. O meio ambiente, que traz vida, sempre foi considerado um bem disponível, mas sem valor nenhum. Uma árvore em pé ou uma água do rio acabam não tendo valor para o PIB, por exemplo, enquanto uma cadeira feita da madeira tem valor. Isso é uma indução à destruição. É incrível que se demore tanto para perceber a contradição dos incentivos econômicos que nos levam a tratar a destruição como consequência do desenvolvimento.

Vem daí a origem dessa falsa oposição entre desenvolvimento e sustentabilidade?

Sim, é como se as florestas fossem mato, praticamente sem nada valer, enquanto um terreno aplainado por trator já tem algum valor. Não sobrou espaço para fazermos a defesa de direitos difusos. Educação, moradia, saúde, qualidade ambiental estão nos princípios dos direitos humanos. Não é favor algum. Enquanto isso, infelizmente, vemos um país onde a desigualdade toma proporções quase limitadores para o nosso futuro. Se não invertermos essa equação, não conseguiremos imaginar um futuro confiável para as próximas gerações.

E como se inverte essa equação? Na Mata Atlântica, as áreas protegidas ainda são mal distribuídas e não cumprem as metas nacionais estabelecidas na década passada para o bioma. Como avançar nesta agenda num país que inclusive parece ter ficado isolado na agenda internacional e perdeu o protagonismo no tema da biodiversidade?

Tínhamos um histórico de protagonismo na agenda ambiental, apesar dessa dificuldade de preservação de determinadas áreas. Éramos respeitados não só pela legislação – em alguns momentos inovadora diante de muitos países – mas também pela própria potência ambiental que somos. Mas a situação se agravou terrivelmente com o atual governo. Não dá para falar de deterioração da relação internacional sem falar do estrago do retrocesso causado pelo atual governo. Com ele, perdemos um eixo de diálogo que nos inseria internacionalmente. Enquanto não mudarmos politicamente a orientação que temos hoje, enquanto a elite brasileira não se conscientizar de que o meio ambiente é um ativo e não um impedimento ao desenvolvimento, enquanto não reorientarmos despesas públicas e privadas na direção da ciência e da tecnologia para que esse ativo se transforme também num ativo econômico, enquanto não fizermos tudo isso será muito difícil imaginar uma transformação. O Brasil é a potência agrícola que é por ser uma potência ambiental. Se esse entendimento não estiver à flor da pele, não mudaremos políticas públicas e interesses conservadores continuarão prevalecendo.

Os olhos do mundo têm se voltado com intensidade para a Amazônia. Como aproveitar esse movimento e incluir a restauração da Mata Atlântica como parte da agenda climática ambiental?

A agenda estratégica dos biomas brasileiros precisa ser discutida e aprofundada. Pelo fato de ser o maior bioma, a Amazônia tem sido a pauta internacional de maior destaque, inclusive pelo seu papel ecossistêmico diante dos compromissos climáticos de fazer a preservação e acabar com o desmatamento, com a invasão de terras e com todas aquelas mazelas a que estamos acostumados. Mas também podemos dar conta de uma parte expressiva de nossas metas por meio da restauração florestal, que deveria ser o grande foco da Mata Atlântica. Primeiro porque é o bioma que está mais afetado pelo desenvolvimento. Segundo, porque a Mata Atlântica é riquíssima em biodiversidade, mas está muito fragmentada e precisamos reconstituir de alguma forma, de modo a regenerar uma parte da riqueza que hoje está perdida.

O cenário internacional favorece hoje o redirecionamento dessa agenda?

No cenário internacional, temos grande oportunidades e grandes ameaças. Temos a ameaça do Brasil pária, do Brasil sem produtos de qualidade – e qualidade hoje não é mais aquela qualidade intrínseca do produto, é também a forma como ele é obtido, é a integração com a cadeia produtiva, é a forma como trata fornecedores e colaboradores. Podemos perder pontos, mercado, preço e remuneração por conta de uma imagem e de uma prática que já deveríamos ter banido ou ter feito esforço necessário para bani-la. Por outro lado, há grandes oportunidades porque podemos liderar a agenda da sustentabilidade e da transição para a economia do baixo carbono. Historicamente temos uma matriz limpa de energia, temos nossos biomas, temos nossas florestas que podem ser pontos de produção de serviços ambientais relevantes para o Brasil e para o mundo. Tudo somado, podemos liderar essa agenda e fixarmos o padrão. Podemos sentar na cabeceira da mesa de negociações e dizer: É assim que se produz com produtividade sem derrubar a floresta. É assim que se produz com qualidade sem detonar rios ou oceanos. Falta consciência e investimento na ciência para que o Brasil faça essa transformação e dê o exemplo.

Em novembro do ano passado, em entrevista ao jornal Valor Econômico, o sr. destacava a mudança de humor do mundo pela eleição de Joe Biden nos EUA, e dizia: “O mundo já mudou porque tem esperança agora. Seis meses depois, o seu otimismo se mantém?

Essa agenda já sofreu algum retrocesso internacionalmente, primeiro com a crise financeira de 2008 e depois com o desastre promovido por Donald Trump. Hoje vejo esperança. É um caminho inevitável, como a ciência está mostrando. Negar a mudança climática é como negar a pandemia. Terá um impacto danoso tanto para regiões muito férteis e produtivas como para as populações mais carentes. Tornará o mundo muito mais difícil, por isso é responsabilidade de todos. Sou um torcedor fanático para que essa agenda internacional evolua na direção da mudança. Há pedras no caminho, mas estou convicto de que a agenda veio para ficar, e a mudança nos EUA é o início de um processo vigoroso. Estamos vivendo um momento em que a cooperação internacional é absolutamente necessária, porque certos problemas não serão resolvidos num nível nacional ou subnacional. É como a vacina: você pode vacinar o seu país, mas se seu vizinho estiver infectado a pandemia volta, porque o vírus muda, te engana. Há, portanto, temas que precisam ser tratados globalmente. São processos difíceis, sofisticados e que exigem muita negociação. Mas são inevitáveis.

Pedro Passos e Mario Mantovani.
E no contexto dessa cooperação internacional, como inserir a Mata Atlântica?

A localização, a densidade populacional e o seu papel econômico mostram a sua importância. Apesar da famosa produção do Cerrado, muito da produção econômica do Brasil está no bioma da Mata Atlântica. É o bioma que mais precisa de um cuidado planejado, e que poderá ter aportes internacionais para que recuperemos a sua força e a sua vitalidade. Como SOS Mata Atlântica, temos a tarefa de ressaltar aos olhos brasileiros e internacionais essa necessidade e essa urgência. Como eu já ressaltei, não basta mais falarmos de desmatamento, precisamos fazer esforço efetivo para restaurar. Temos também a possibilidade de recuperar boa parte de nossos rios. Esse é um tema relevantíssimo para a Mata Atlântica: água limpa para todos. O Brasil é rico em água, é verdade, mas essa água não é tão homogeneamente distribuída. A crise hidrológica da região Sudeste, por exemplo, se repete não só porque nos faltam alguns investimentos, mas também porque falta proteção dessas fontes geradoras de água que estão representadas pela Mata Atlântica. Também precisamos buscar um maior número de Unidades de Conservação e inovar na forma de gestão dessas unidades. E não basta à sociedade jogar nas costas do governo a responsabilidade por tudo. Há uma nova arquitetura a ser desenhada.

Falando em responsabilidades além do governo, a SOS Mata Atlântica tem destacado, por exemplo, que a expansão agrícola em regiões específicas, a urbanização em cidades de médio e grande porte, a infraestrutura de turismo e a aquicultura em regiões costeiras têm sido grandes vetores de desflorestamento. E em regiões como o Rio e São Paulo, constata-se o peso do setor imobiliário e do turismo. Como conciliar as necessidades econômicas com respeito e proteção ao meio ambiente?

Esse é o desafio: integrar desenvolvimento com preservação e conservação, e criar um modelo de fato sustentável. O Brasil evita um pouco esse tema, mas a questão da produtividade é a resposta para muitas dessas coisas. Precisamos crescer com produtividade. A expansão colonial já acabou. Essa ideia de largar o boi no pasto e ir derrubando árvore indiscriminadamente não faz mais sentido, nem econômico. Não tem sustentação no tempo. Do mesmo modo nas cidades, com o modelo brasileiro de construção civil, hoje uma grande emissora de carbono. Precisamos remodelar nossos desenhos de ocupação do solo para ganhar produtividade. Podemos produzir mais com menos áreas e usando menos recursos naturais. O velho modelo já revelou seu esgotamento e sua insustentabilidade. Temos de crescer, mas com consciência, inteligência, investimento em tecnologia e inovação. Não vamos continuar despejando toneladas de plástico dos nossos resíduos sólidos ou daqui a pouco haverá mais plástico do que peixes nos oceanos. Sob qualquer olhar, a conta não fecha. Obviamente a consciência é o motor dessa inovação.

A SOS Mata Atlântica tem atuado fortemente em apoio à Frente Parlamentar Ambientalista no Congresso Nacional. A questão do licenciamento ambiental, aprovado na Câmara dos Deputados neste mês, é a mais recente luta do movimento. Qual é o caminho ideal para o licenciamento ambiental no Brasil?

Todas as políticas públicas devem passar por uma avaliação e revisão de tempos em tempos. A regra vale para a Previdência, para as leis trabalhistas, e com o licenciamento ambiental não é diferente. Não há dogma que diga que o licenciamento ambiental é intocável. É algo democrático que tenhamos um diálogo sobre quais pontos precisaríamos evoluir e quais pontos precisam ser preservados. Como é democrático que alguns setores defendam interesses diversos. A SOS Mata Atlântica tem produzido muito conhecimento nessas áreas, e de modo completamente aberto ao diálogo construtivo. Mas esse é um caso triste. Foi aprovado na Câmara um projeto muito aquém do que já havia sido negociado entre vários atores. Tínhamos chegado a uma versão que, se não nos atendia em tudo, pelo menos preservava fundamentos importantes, como o zoneamento ecológico.

O sr. fala de uma nova consciência. Como construir uma mentalidade de longo prazo, sensibilizar governos, lideranças, Congresso, empresas, velhas e novas gerações?

A renovação geracional é muito importante porque é ela que vai acelerar o processo. Lido muito com jovens, e vejo hoje uma visão de que, antes de sua realização financeira, é importante um compromisso com causas que lhes façam sentido. Isso tem mudado as empresas por dentro. Não sou ingênuo, sei que tem muito marketing verde, mas o fato é que conheço muitas empresas que tinham menos preocupação ambiental e social do que têm hoje. Elas perceberam que, se não adotarem essa agenda, não atrairão talentos importantes para suas organizações. É uma demanda que brota da sociedade, e a transformação está vindo. Não faltam obstáculos, mas isso faz parte do nosso desafio.

Ao mesmo tempo, vemos retrocessos na democracia e na confiança nas instituições, algo que pode se tornar um problema quando se pensa o futuro do país, com uma nova mentalidade e novas práticas ambientais e sociais. Como o sr. analisa esse desafio?

Sim, temos visto uma perda de confiança da sociedade em suas instituições. E sem confiança não se constrói um país. Sem confiança não há como construir uma agenda positiva para o Brasil. Precisamos eleger democraticamente um grupo em quem confiamos que esteja interessado no futuro. E infelizmente vivemos esse retrocesso. Por outro lado, alguns aspectos positivos me chamam a atenção. Antes, tínhamos uma agenda muito, digamos, ideológica, segmentada. Hoje ela ganha uma abrangência muito maior. A questão ambiental deixou de ser aquela agenda alternativa para ser uma agenda do mainstream. Ainda há muita resistência, grupos de interesse ainda são muitos fortes no país e por isso precisamos fazer um convencimento de que esta agenda se dá em prol da grande população e não de setores específicos, de que é uma agenda boa para todos, para o bem comum, e não para pequenos grupos.

DOAR AGORA
Fundação SOS Pro-Mata Atlântica
info@sosma.org.br
+55 (11) 3262-4088
Av. Paulista, 2073 – Horsa 1 – Conj. 1318
01311-300 – Bela Vista – São Paulo/SP
57.354.540/0001-90
Mata Atlântica

Fonte: SOS Mata Atlântica

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s